História de Portugal
A história de Portugal como nação europeia remonta à Baixa Idade Média, quando o condado Portucalense se tornou autónomo do reino de Leão. Contudo a história da presença humana no território correspondente a Portugal começou muito antes. A pré-história regista os primeiros hominídeos há cerca de 500 mil anos. O território foi visitado por diversos povos: fenícios que fundaram feitorias, mais tarde substituídos por cartagineses. Povos celtas estabeleceram-se e misturaram-se com os nativos. No século III a.C. era habitado por vários povos, quando se deu a invasão romana da Península Ibérica. A romanização deixou marcas duradouras na língua, na lei e na religião. Com o declínio do Império Romano, foi ocupado por povos germânicos e depois por muçulmanos (mouros e alguns árabes), enquanto que os cristãos se recolhiam a norte, nas Astúrias.
Em 1139, durante a reconquista cristã, foi fundado o Reino de Portugal a partir do condado Portucalense, nascido entre os rios Minho e Douro. A estabilização das suas fronteiras em 1297 tornou Portugal o país europeu com as fronteiras mais antigas. Como pioneiro da exploração marítima na Era dos Descobrimentos, o reino de Portugal expandiu os seus territórios entre os séculos XV e XVI, estabelecendo o primeiro império global da história, com possessões em África, na América do Sul, na Ásia e na Oceania. Em 1580 uma crise de sucessão resultou na União Ibérica com Espanha. Sem autonomia para defender as suas posses ultramarinas face à ofensiva holandesa, o reino perdeu muita da sua riqueza e status. Em 1640 foi restaurada a independência sob a nova dinastia de Bragança. O terramoto de 1755 em Lisboa, as invasões espanhola e francesas, resultaram na instabilidade política e económica. Em 1820 uma revolta fez aprovar a primeira constituição portuguesa, iniciando a monarquia constitucional que enfrentou a perda da maior colónia, o Brasil. No fim do século, a perda de estatuto de Portugal na chamada partilha de África.
Uma revolução em 1910 depôs a monarquia, mas a primeira república portuguesa não conseguiu liquidar os problemas de um país imerso em conflito social, corrupção e confrontos com a Igreja. Um golpe de estado em 1926 deu lugar a uma ditadura. A partir de 1961 esta travou uma guerra colonial que se prolongou até 1974, quando uma revolta militar derrubou o governo. No ano seguinte, Portugal declarou a independência de todas as suas posses em África. Após um conturbado período revolucionário, entrou no caminho da democracia pluralista. A constituição de 1976 define Portugal como uma república semipresidencialista. A partir de 1986 reforçou a modernização e a inserção no espaço europeu com a adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE).
Pré-história e Proto-história
Mapa Étnico-Linguístico da Península Ibérica cerca de 300 a.C.
Os mais antigos fósseis conhecidos de hominídeos na Europa,
datados de 1,1 a 1,2 milhões de anos, foram encontrados no norte da
Península Ibérica, na serra de Atapuerca. Em Portugal, os vestígios
humanos mais antigos datam de há cerca de 500-300 mil anos, quando a
região era habitada por neandertais. Os vestígios mais antigos
conhecidos de Homo sapiens são de homens de Cro-Magnon com
"traços" de neandertal, com 24.500 anos. O fóssil de uma
criança encontrado no Vale do Lapedo é interpretado como indicador
de populações híbridas resultantes do cruzamento das duas
espécies. São também os vestígios de seres com características
neandertais mais recentes que se conhecem, possivelmente os últimos
da sua espécie. Estas eram sociedades paleolíticas de subsistência,
de caçadores-coletores que deixaram vestígios como a arte rupestre
do Vale do Coa a norte e a gruta do Escoural, a sul.
Após o fim da última idade do gelo, há cerca de 12 a 11 mil
anos, as alterações climáticas permitiram iniciar a domesticação
de animais de pastoreio, algumas culturas de cereais e a pesca. O
neolítico é testemunhado no sul de Portugal por utensílios de
pedra e pela cultura megalítica, com dólmens como a anta Grande do
Zambujeiro, menires como no cromeleque dos Almendres, bem como arte
esquemática como na anta pintada de Antelas e em ídolos-placa.
A idade do bronze da Península, com o desenvolvimento da olaria e
outros metais como ouro e prata, iniciou-se cerca de 4 000 a.C.
a sul, em locais como El Argar, de onde se espalhou. No III milénio
a.C., várias ondas de povos indo-europeus celtas vindos da Europa
Central invadiram o território. Misturando-se com as populações
locais, formaram diferentes grupos étnicos, com numerosas tribos. As
principais dessas tribos foram os galaicos, que estabeleceram a
cultura castreja a norte, os lusitanos no centro, os célticos no
Alentejo, e os cónios no extremo sul de Portugal (regiões do
Algarve e Alentejo). Aí se desenvolveu a escrita do sudoeste, uma
das escritas paleo-hispânicas. A sul, na mesma altura,
estabeleceram-se também alguns postos comerciais costeiros
semi-permanentes de fenícios e, a partir do século V a.C., de
cartagineses.
Romanização
As províncias romanas Lusitânia e Galécia, reorganização da
Hispânia de Diocleciano, 298
Os Romanos iniciaram a invasão da Península Ibérica (a que
chamavam "Hispânia") em 218 a.C., durante a Segunda Guerra
Púnica contra Cartago. Aí anexaram inicialmente duas regiões como
províncias, a Hispânia Citerior (nordeste) e a Hispânia Ulterior
(sudoeste)[10] A mineração foi o primeiro factor de interesse na
região: um dos objectivos estratégicos de Roma era cortar a ligação
de Cartago com as minas hispânicas de cobre, estanho, ouro e
prata.[11]
No fim do século I a.C. foi criada a província da Lusitânia, que
correspondia a grande parte do actual Portugal a sul do rio Douro e à
estremadura espanhola, com capital em Emerita Augusta (Mérida).[10]
Os Romanos exploraram com intensidade minas como Aljustrel (Vipasca)
e São Domingos, na Faixa Piritosa Ibérica que se estende até
Sevilha. [12]
Enquanto o sul foi ocupado com relativa facilidade, a anexação do
norte só se deu muito depois, em parte devido à resistência dos
povos nativos. Povos célticos, como os Lusitanos liderados por
Viriato nos Montes Hermínios (serra da Estrela), conseguiram conter
a expansão romana durante anos. [13] Perito em tácticas de
guerrilha, Viriato travou uma guerra incansável contra os invasores,
derrotando sucessivamente vários generais romanos, até ser morto à
traição em 140 a.C.. A conquista total da Península Ibérica
ocorreu dois séculos após a chegada, quando os Romanos venceram as
guerras cantábricas, no tempo do imperador Augusto (19 a.C.)[10]. Em
74 Vespasiano concedeu o "direito latino" (equiparação
aos municípios da Itália) a grande parte dos municípios da
Lusitânia. Em 212 a Constituição Antonina atribuiu a cidadania
romana a todos os súbditos (livres) do Império e, no fim do século,
o imperador Diocleciano fundou a Galécia, que integrava o norte do
actual Portugal, a Galiza e as Astúrias, últimos territórios
conquistados.[10]
Ponte de Trajano sobre o rio Tâmega, Chaves (Portugal)
A economia da Hispânia teve uma enorme expansão. Além da
mineração, os Romanos desenvolveram a agricultura naquelas que eram
algumas das melhores terras agrícolas do Império. No actual
Alentejo cultivaram vinha e cereais, e no litoral desenvolveram a
indústria pesqueira para fabricação de garum- no litoral
algarvio, em Lisboa[14], na Póvoa de Varzim, em Matosinhos e em
Troia[15]- que exportavam pelas rotas comerciais romanas para todo o
império. As transações comerciais eram facilitadas pela cunhagem
de moeda e pela construção de uma extensa rede viária, aquedutos e
pontes, como a de Trajano em Águas Flávias (actual Chaves).[10] Os
romanos fundaram numerosas cidades- como Olisipo (Lisboa), Bracara
Augusta (Braga), Emínio (Coimbra), Pax Júlia (Beja)[16]- e deixaram
um importante legado cultural naquilo que é hoje Portugal: o Latim
vulgar tornou-se o idioma dominante da região[17], base da língua
portuguesa, e a partir do século III o cristianismo difundiu-se em
toda a Hispânia.[18]
Invasões bárbaras
Península Ibérica c. 560: Território suevo com capital em Braga
(azul); território visigodo com capital em Toledo (ocre)
Em 409, com o declínio do Império Romano, a Península Ibérica foi
ocupada por povos de origem germânica, a que os romanos chamavam
bárbaros.[19] Em 411, num contrato de federação com o imperador
Honório, vários destes povos instalaram-se na Hispânia: suevos e
vândalos asdingos na Galécia, alanos, de origem persa, na Lusitânia
e Cartaginense.[20] Destes povos, suevos e visigodos foram os que
tiveram uma presença mais duradoura no território correspondente a
Portugal. Como em toda a Europa ocidental, as cidades sofreram uma
acentuada decadência, e tanto na vida urbana como na economia
verificou-se uma ruralização.[21]
Os suevos fundaram o reino suevo com capital em Braga, chegando a
dominar até Emínio (Coimbra).[22] Com as invasões desapareceram as
instituições romanas, mas manteve-se de pé a organização
eclesiástica, que os suevos adoptaram ainda no século V, seguidos
pelos visigodos, e que foi um importante instrumento de estabilidade.
Apesar de inicialmente adeptos do arianismo e do priscilianismo,[23]
adoptaram o catolicismo das populações locais hispano-romanas no
ano 449, evangelizados por influência de S. Martinho de Braga.[24] A
governação sueva baseou-se nas paróquias, descritas no Parochiale
suevorum de c.569. [23] e o reino suevo tornou-se o primeiro
reino cristão da Europa, sendo também o primeiro a cunhar moeda
própria.[25]
Em 415 os visigodos, inicialmente instalados na Gália, avançaram
para sul como aliados do Império Romano para expulsar alanos e
vândalos,[26] e fundaram um reino com capital em Toledo. A partir de
470 cresceram os conflitos entre o reino suevo e o vizinho reino
visigodo. Em 585 o rei visigodo Leovigildo conquistou Braga e anexou
a Galécia.[27] A partir daqui toda a Península Ibérica ficou
unificada sob o reino visigodo (excepto algumas zonas do litoral sul
e levantino, controladas pelo Império Bizantino e a norte pelos
vascões). A estabilidade interna do reino foi sempre difícil, pois
os visigodos eram uma minoria e professavam o arianismo, enquanto a
população local era católica. A sua estratégia inicial foi
manter-se como minoria dirigente estritamente separada da maioria
autóctone. No entanto a consolidação dos seus reinos deu-se
precisamente devido à integração com a população local,
adoptando a língua latina, adaptando a lei romana e convertendo-se
com Recaredo I ao catolicismo[21] Mas em 710 uma crise dinástica
entre partidários dos reis Rodrigo e Ágila II levou à invasão
muçulmana que resultou no colapso do reino.[28]
Ocupação árabe
Antiga mesquita de Mértola, no sul de Portugal, hoje Igreja de
Santa Maria da Assunção
Em 711, um exército omíada de berberes e árabes recém convertidos
ao islão liderados por Tárique (Tárique ibne Ziade)[29],
desembarcou em Gibraltar após conquistar o norte de África.[30]
Aproveitando-se das lutas internas que dividiam os visigodos ou
chamados como aliados da facção de Ágila II, venceram a batalha de
Guadalete contra as forças do rei visigodo Rodrigo. Rapidamente
avançaram até Saragoça, beneficiando do povoamento disperso para
conquistar quase toda a Península.[31]. Ao território ocupado como
província do Califado Omíada chamavam Alandalus. Ao oeste da
Península, correspondente a Portugal, chamavam o Algarbe Alandalus
ou simplesmente Al-Garb (o ocidente).[32]
As populações locais puderam permanecer nas suas terras mediante
pagamento. Os seus hábitos, cristãos e judeus foram tolerados.[33].
Apesar de arabizados, os moçárabes mantiveram um contínuo de
dialetos românicos -a língua moçárabe- e rituais cristãos. Os
novos ocupantes desenvolveram a agricultura, melhorando os sistemas
de rega romanos, introduzindo a cultura de arroz e de citrinos,
alperces e pêssegos.[34].
Em 756, Abderramão I, resistindo ao domínio abássida, fundou no
Alandalus um emirado independente que se tornou o florescente
califado de Córdova.[35] A sua economia assentava no comércio, na
agricultura e na indústria artesanal muito desenvolvidos. A cunhagem
de moeda foi fundamental e uma das mais importantes à época. A
capital, Córdova, foi durante o século X uma das maiores cidades do
mundo e um centro financeiro, cultural, artístico e comercial com
bibliotecas, universidade, uma escola de medicina e de tradutores de
grego e hebraico para o árabe.[36]
Em 1009 um golpe de estado iniciou um período de guerra civil no
Alandalus, a fitna, que conduziu à fragmentação do califado
em reinos rivais, as taifas.[37]. O território a sul do Douro foi
dividido entre as taifas de Badajoz, de Sevilha e de Silves. Livres
de um poder central, cidades como Alcácer do sal e Lisboa e Silves
desenvolveram-se com base no comércio. A partir de 1090 os
almorávidas, que predicavam o cumprimento ortodoxo do Islão, foram
chamados por Almutâmide, o rei poeta da taifa de Sevilha, para
auxiliar na defesa face ao avanço de Afonso VI de Leão e Castela e
reunificaram o Alandalus por algum tempo até que este se desintegrou
de novo, originando novas taifas. Entre 1144-1151 existiram três
taifas no que é hoje Portugal: a Taifa de Mértola, a Taifa de
Silves e a Taifa de Tavira, depois integradas no Califado Almóada
vindos de Marrocos, descontentes com o insucesso em revigorar os
estados muçulmanos e suster a reconquista cristã. A ocupação
árabe da Península durou mais de cinco séculos durante os quais,
partindo das Astúrias, a única região que resistiu à invasão
árabe, se desenvolveu um movimento de reconquista da Península.[38].
Formação do Reino de Portugal (1139–1385)
Evolução das fronteiras dos territórios na Península Ibérica
entre 914 e 1250
Desde 718, refugiando-se da súbita invasão muçulmana da Península
Ibérica, um grupo de cristãos visigodos resistiu acantonado a
norte, na região montanhosa das Astúrias. Aí, liderados por
Pelágio, fundaram o Reino das Astúrias e iniciaram a reconquista de
territórios. [39] Este processo gradual originou o nascimento de
pequenos reinos, que iam sendo alargados à medida que as conquistas
eram bem sucedidas. Assim nasceram o Reino de Leão, de Navarra, de
Aragão, de Castela e da Galiza.[40]
Em 1096, o rei Afonso VI entregou o governo do Condado
Portucalense, formado em 868 entre os rios Minho e Douro,[41] a
Henrique de Borgonha pelo casamento com a sua filha Teresa de Leão.
Depois da morte de D.Henrique, D.Teresa tentou alargar os seus
domínios e obter a autonomia aliada à alta nobreza galega contra a
sua meia-irmã Urraca de Leão e Castela. Mas em 1121 teve de recuar
e negociar um tratado, mantendo-se o condado um vassalo do reino de
Leão.[42]
Teresa exercera a regência durante a menoridade do seu filho, Afonso
Henriques. Mas em 1122 os interesses de ambos chocaram, quando este
se opôs a uma união galego-portuguesa. A posição de favoritismo
de D.Teresa em relação aos nobres galegos e a indiferença para com
os fidalgos e eclesiásticos portucalenses originou a revolta que
este liderou. D. Afonso Henriques armou-se cavaleiro e passou a viver
em Coimbra.[43] Em 1128 venceu a batalha de São Mamede contra as
forças de sua mãe e Fernão Peres de Trava. Assumiu então o
governo do condado e concentrou esforços em negociações junto da
Santa Sé para alcançar a autonomia. Simultaneamente procurou
alargar os seus domínios, conquistando território aos muçulmanos,
enquanto lutava contra as forças de seu primo Afonso VII de Leão e
Castela.[42]
Em 1139, depois de uma importante vitória contra um contingente
mouro na batalha de Ourique, D. Afonso Henriques foi aclamado rei de
Portugal, com o apoio das suas tropas.[44] Nascia assim o Reino de
Portugal, com capital em Coimbra e iniciava-se a primeira dinastia. A
independência portuguesa foi reconhecida por Leão e Castela em 1143
pelo tratado de Zamora. Em 1147, com o apoio de cruzados norte
europeus,[45] Afonso I de Portugal conquistou Lisboa. Com a
pacificação interna, prosseguiu as conquistas aos mouros,
empurrando as fronteiras para sul, desde Leiria ao Alentejo.
Considera-se que foi em 1211, reinado de D. Afonso II, a primeira
vez que foram reunidas cortes em Coimbra com representantes do clero
e nobreza. Foram publicadas importantes leis para proteger os bens da
Coroa, garantir as liberdades e proibir os abusos dos funcionários
régios.
Em 1249, o Algarve mourisco foi incluído no reino cristão de
Portugal, concluindo a reconquista portuguesa. Isso aconteceu no
reinado de D. Afonso III, que acrescentou à sua intitulação "Rei
de Portugal e do Algarve". Em 1254 foram realizadas cortes
em Leiria, onde estavam pela primeira vez representantes das vilas e
cidades. Em 1297 D. Dinis selou a paz com os reinos de Leão e de
Castela e fixou os limites fronteiriços pelo Tratado de Alcanizes.
Anos antes, em 1290, adoptara como língua oficial do reino de
Portugal, em vez do latim, a "língua vulgar"
(galego-português), a que chamou língua portuguesa.
Consolidação e expansão (1385–1580)
Crise de 1383–1385 e dinastia de Avis
A Batalha de Aljubarrota que assegurou a independência face a
Castela, a nova dinastia de Avis e a aliança luso-britânica.
Pintura do século XV de Jean d'Wavrin, British Library
Desde 1369, no início do seu reinado, D. Fernando I travou as
guerras fernandinas contra forças castelhanas, ao reclamar-se
herdeiro do trono de Castela. Mais tarde, no contexto da guerra dos
cem anos que dividia a Europa, apoiou a pretensão de João de Gante,
duque de Lancaster, ao mesmo trono. [46] Contudo, pouco antes de
morrer, viu a sua impopular mulher Leonor Teles de Menezes negociar o
casamento da filha Beatriz de Portugal com João I de Castela,
planeando entregar-lhe o trono de Portugal.[46]
Desde as
guerras fernandinas, a nobreza portuguesa dividira-se em duas
facções: pro-castelhanas e pro-inglesas. Após a morte de D.
Fernando I, sem herdeiros masculinos, a regência de Leonor Teles
lançou o reino num período de guerra civil e anarquia, com uma
parte significativa da população revoltada face à possibilidade da
perda de independência. [47] Durante a crise de 1383-1385, a rainha
partilhava o governo com o nobre galego João Fernandes Andeiro. A
facção pela independência que se lhe opunha era liderada pelo
meio-irmão de D. Fernando, D. João, Mestre de Avis. Em dezembro de
1383, D. João liderou uma revolta contra a rainha que matou o
Andeiro. Após a morte do conde, o povo de Lisboa aclamou-o Regedor
e Defensor do Reino. De imediato as forças de Juan I de Castela
entraram em Portugal e cercaram Lisboa. Em abril de 1384, Nuno
Álvares Pereira, nomeado fronteiro do Alentejo, vence uma força
castelhana em número superior à sua, na batalha dos Atoleiros.
Em 1385, os castelhanos avançaram para tomar o trono de
Portugal.[48] Convocaram-se então as cortes de Coimbra de 1385. Aí,
um grupo de nobres e mercadores que incluía São Nuno de Santa Maria
(D. Nuno Álvares Pereira), opôs-se ao Partido Legitimista leal a D.
Leonor. Procurando garantir a independência do reino, nomearam então
como rei de Portugal D. João, Mestre de Avis, filho ilegítimo de
Pedro I.[49]. Assim terminava a dinastia de Borgonha e iniciava-se
uma segunda dinastia portuguesa, a dinastia de Avis.
Com aliados ingleses, D. João I liderou uma vitória determinante
na batalha de Aljubarrota, que aniquilou definitivamente o exército
castelhano e assegurou a independência do reino. Os exércitos
portugueses foram comandados por Nuno Álvares Pereira, nomeado
Condestável do Reino. Meses depois, o Condestável invadiu Castela e
infligiu nova derrota na Batalha de Valverde. O casamento de D.
João I com D. Filipa de Lencastre, princesa inglesa filha de
João de Gante, e a assinatura do Tratado de Windsor (1386) selaram a
aliança luso-britânica.
Descobrimentos e formação do império português
Descobrimentos portugueses de 1415-1543, principais rotas no
Oceano Índico (azul), territórios portugueses no reinado de D. João
III (verde)
Em 1415, as
forças de D. João I conquistaram a cidade de Ceuta, no norte de
África, movidas pelo espírito de continuação da reconquista e
pelo interesse comercial. Foi o início do expansionismo
português.[50]
À medida que os muçulmanos retaliavam e desviavam as rotas
comerciais, decidiu-se investir na exploração por mar ao longo da
costa africana. Para dirigir a exploração foi nomeado o Infante D.
Henrique.[51] A partir de 1419, com o incentivo do infante,
navegadores experientes e os mais avançados desenvolvimentos
náuticos e cartográficos da época, exploraram a costa ocidental de
África sistematicamente, cada vez mais para sul. Em 1418/19 chegaram
ao arquipélago da Madeira e em 1427 aos Açores onde estabeleceram
capitanias que prosperaram da agricultura e de uma florescente
indústria de açúcar.[52]
Gil Eanes transpôs o difícil Cabo Bojador em 1434.[53] Após
aperfeiçoar a caravela em meados do século, em 1479 passaram o
Equador. Em 1471 no Golfo da Guiné foi estabelecida a feitoria de
São Jorge da Mina para apoiar um florescente comércio de ouro de
aluvião. Partindo da Mina Diogo Cão fez o primeiro contacto com o
Reino do Congo.[54] Intensificam então a busca de um caminho
marítimo para as "Índias", alternativo ao Mediterrâneo -
dominado pelas repúblicas marítimas italianas, pelos otomanos,
pelos mouros e por piratas- no lucrativo comércio de especiarias.
Após sucessivas viagens exploratórias, em 1488 Bartolomeu Dias
dobrou o Cabo da Boa Esperança, entrando pela primeira vez no Oceano
Índico a partir do Atlântico.[55]
A chegada de Cristóvão Colombo à América em 1492 precipitou uma
negociação entre D. João II e os Reis Católicos de Castela e
Aragão. Como resultado foi assinado em 1494 o Tratado de
Tordesilhas, dividindo o mundo em duas áreas de exploração
demarcadas por um meridiano situado entre as ilhas de Cabo Verde (a
370 léguas a oeste deste arquipélago) e as recém descobertas
Caraíbas: cabiam a Portugal as terras "descobertas e por
descobrir" situadas a leste deste meridiano, e à Espanha as
terras a oeste dessa linha.[56] Em 1498, Vasco da Gama chegou à
Índia, estabelecendo o primeiro contacto direto da Europa com a Ásia
e inaugurando a importante rota do cabo.[57] Em 1500, na segunda
viagem para a Índia, Pedro Álvares Cabral desviou-se da costa
Africana e aportou no Brasil.[58] Em Lisboa foi então estabelecida a
Casa da Índia para administrar todos os aspetos do comércio e da
navegação além-mar e foi nomeado o primeiro vice-rei da Índia
sediado em Cochim.[59]
A vitória
na Batalha de Diu afastou mamelucos e árabes, facilitando o domínio
português do Índico. Em 1510 sob o governo de Afonso de Albuquerque
foi constituído o Estado Português da Índia com capital em Goa,
primeira conquista territorial. Albuquerque conquistou Malaca em
1511, alcançando as ambicionadas "ilhas das especiarias"
(ilhas Molucas) em 1512, e aportando na China um ano depois. Enquanto
isso outros navegadores exploravam o Oceano Pacífico ao serviço do
Império Espanhol, como Fernão de Magalhães. Na sequência da sua
viagem de circum-navegação, quando as explorações portuguesas e
espanholas convergem nas ilhas Molucas foi firmado em 1529 o Tratado
de Saragoça que demarcou as explorações no oriente: as Molucas
foram atribuídas a Portugal e as Filipinas a Espanha.[60]
Rotas comerciais portuguesas de Lisboa a Nagasaki entre 1580-1640
(azul); rotas rivais espanholas (branco) com o chamado galeão de
Manila estabelecido em 1565
De 1415 até 1534,
quando se iniciou colonização do interior nas capitanias do Brasil
por D. João III, o império português foi uma talassocracia,[61]
abrangendo os oceanos Atlântico e Índico. Uma cadeia de
fortificações costeiras protegia uma rede de feitorias, com o
comércio reforçado por licenças de navegação, os cartazes, com o
apoio de numerosas relações alianças diplomáticas com o Reino do
Sião, Império Safávida da Pérsia, Reino de Bisnaga, Etiópia,
entre outras. Era completado pela acção de missionários ao abrigo
do Padroado português, um acordo da coroa portuguesa com a Santa Sé.
Em 1542 ou 1543, comerciantes portugueses aportam no Japão,[62] onde
mais tarde ajudam a fundar Nagasáqui. Em 1557, as autoridades
chinesas autorizaram os portugueses a estabelecerem-se em Macau, que
se tornou a base de um próspero comércio triangular entre a China,
o Japão e a Europa, via Malaca e Goa.[63] Em 1571, uma cadeia de
entrepostos ligava Lisboa a Nagasaki: nascera o primeiro império
global da história,[64] trazendo enormes riquezas para Portugal. Em
1572, Luís Vaz de Camões publicou "Os Lusíadas", três
anos após regressar do Oriente, cuja acção central é a descoberta
do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama.[65]
União Ibérica (1580–1640)
Dinastia filipina
Império português (verde) com as zonas disputadas entre
1588-1654 pelos holandeses das companhias da República das Sete
Províncias Unidas (laranja)
O rei D.
Sebastião partiu para a Batalha de Alcácer-Quibir e, com 24 anos,
falece na mesma a 4 de Agosto de 1578. Como não tinha descendentes,
originou-se um problema de sucessão.[66]. O Cardeal D. Henrique,
irmão de D. João III, que já assumia as funções de regente desde
23 de Dezembro de 1562, acaba por ficar com o trono, após a morte de
D. Sebastião. A 31 de Janeiro de 1580 acaba por falecer, e devido à
sua idade avançada, não consegue deixar descendentes ao trono.
Portugal enfrentou, assim, uma grave crise dinástica em 1580.
Assim sendo, surgem três netos de D. Manuel I a reclamar o trono:
Catarina, duquesa de Bragança, António, Prior do Crato e Filipe II
de Espanha.[67]. A 9 de Junho, D. António, foi aclamado rei pelo
povo de Santarém, mas Filipe II, apoiado pelo Conselho de
Governadores e por parte da aristocracia portuguesa, entrou no país
e derrotou-o na batalha de Alcântara. [68].
Em 1581, Filipe II convocou as Cortes de Tomar. Aí, após se
comprometer a manter a língua, leis e cargos na mão de portugueses
foi coroado rei de Portugal sob a forma de monarquia dual - dois
reinos, um rei - iniciando a união ibérica sob a a dinastia
Filipina, apesar da oposição dos partidários de D. António nos
Açores.[69] A Guerra da Sucessão Portuguesa prolongou-se por dois
anos até ao Desembarque da Baía das Mós. A governação ibérica -
dos dois reinos e seus imensos impérios - era assegurada por
Conselhos (Consejos) com sede em Madrid.[70]. Em Lisboa, um vice-rei
nomeado pelo rei chefiava o governo.
Durante a união
o império português sofreu grandes reveses, ao ser envolvido nos
conflitos dos Habsburgos com a Inglaterra, a França e a Holanda.
Entre 1595 e 1663 foi travada a Guerra Luso-Holandesa com as
Companhias Holandesas das Índias Ocidentais e Ocidentais, que
tentavam tomar as redes de comércio portuguesas de especiarias
asiáticas, escravos da África ocidental e açúcar do Brasil.[71].
Os holandeses apoderaram-se sucessivamente de Ternate e Amboina na
Indonésia, da Capitania de Pernambuco no Brasil, de São Jorge da
Mina, Arguim, Axim, tomando o lugar dos portugueses no Japão em 1639
e cercando Macau. Ao passo que os ingleses tomaram Ormuz em 1622.
Restauração e invasões (1640–1820)
Restauração
Aclamação de D. João IV como rei de Portugal, pintado por
Veloso Salgado, Museu Militar de Lisboa
No reinado
de Filipe III (IV de Espanha) (1621-1640) vários problemas
minaram o apoio português à união: o aumento de impostos sobre
comerciantes portugueses, a perda de importância da nobreza nas
cortes espanholas, os cargos de governação ocupados pelos espanhóis
e a pressão para partilhar o fardo financeiro e militar das guerras
de Espanha. Os portugueses estavam pouco inclinados a ajudar, uma vez
que a Espanha não conseguira evitar a ocupação holandesa das suas
possessões coloniais. Isto apesar do facto de tanto portugueses como
holandeses estarem nominalmente sob a sua coroa.[72]
A situação culminou numa revolução feita pela nobreza e alta
burguesia em 1 de dezembro de 1640. A revolução, embora previsível,
foi despoletada quando o João, 8.º duque de Bragança foi convocado
para organizar tropas e lutar contra revoltosos na Catalunha. A trama
foi planeada pelos chamados "Quarenta Conjurados", que
aproveitaram o facto de as tropas castelhanas estarem ocupadas no
outro lado da Península. O apoio do povo foi imediato, e logo o
duque de Bragança foi aclamado rei de Portugal em todo o país,
iniciando a dinastia de Bragança como João IV de Portugal.
Na subsequente Guerra da Restauração contra Filipe IV os
portugueses venceram várias batalhas. Em 1641, para proteger os
territórios ultramarinos, foi celebrada uma trégua com os
holandeses. Sem efeito, pois estes ocuparam São Tomé, Luanda,
Ceilão e Malaca. Entre 1645 e 1654, recifenses comandados por
Salvador Correia de Sá recuperaram o Recife e conseguiram
reconquistar Angola e São Tomé. Em 1661 foi selada a segunda Paz de
Haia. Portugal aceitou as perdas na Ásia e os holandeses a soberania
portuguesa do Nordeste brasileiro, mediante o pagamento equivalente a
63 toneladas de ouro.[73] Nesse ano, para obter uma aliança com os
ingleses, D. João IV negociou o casamento da sua filha Catarina
de Bragança com Carlos II de Inglaterra, cedendo como dote Tânger e
Bombaim.
A paz definitiva com os holandeses foi conseguida após estes
tomarem Cochim e a costa de Malabar. A paz com Espanha foi conseguida
finalmente em 1668, após a vitória portuguesa na Batalha de Montes
Claros, e uma vez falecido o renitente Filipe IV da Espanha. Foi
selada pelo Tratado de Lisboa (1668) entre Afonso VI de Portugal e
Carlos II de Espanha, pondo fim a quase 30 anos de guerra. Espanha
reconheceu a independência de Portugal e devolvem-se prisioneiros e
conquistas, excepto a cidade de Ceuta, que ficou na posse de Espanha.
Era pombalina e absolutismo
Marquês de Pombal e a reconstrução
de Lisboa após o Terramoto de 1755
A primeira
metade do século XVIII foi marcada pelo florescimento da mineração
no Brasil, após serem aí descobertos ouro e pedras preciosas. O rei
D. João V tornou-se então um dos mais ricos monarcas da Europa.[74]
A 1 de novembro de 1755, no reinado do seu sucessor D. José I,
ocorreu o grande terramoto de Lisboa que destruiu quase toda a cidade
e que foi um golpe no coração do império.[75] O primeiro-ministro
Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, dirigiu uma
rápida reconstrução.[76] Na baixa de Lisboa aplicou os conceitos
urbanos e estéticos do Iluminismo e iniciou um período de
modernização e europeização, com reformas profundas na
administração, economia e educação, rumo a uma monarquia
absoluta[77] impondo o despotismo esclarecido à nobreza.[78]
As Cortes nunca
reuniram. Em 1757, os jesuítas, defensores do pacto de sujeição do
rei à República [carece de
fontes], que
viriam a ser expulso do paço e, depois, expulsos de Portugal com a
aquiescência do Vaticano, com impacto em toda a Europa.[79]. Um ano
depois, a tentativa de assassinato do rei foi aproveitada pelo
Marquês de Pombal para iniciar uma campanha de punição das
famílias reticentes no processo dos Távora. Relativamente ao
Brasil, o Marquês considerava-o uma colónia estritamente dependente
de Lisboa e ao serviço do enriquecimento do Reino de Portugal; o
povo brasileiro sentiu-se desprezado, o que gerou a instabilidade
local suficiente para que a colónia se revoltasse. [carece de
fontes]
O rei morreu em 1777, ascendendo ao trono D. Maria I de Portugal e
seu marido D. Pedro III, que derrubaram o Marquês de Pombal e o
forçaram a refugiar-se fora da capital. O império decaiu e o
declínio acentuou-se com as guerras napoleónicas.
Invasões francesas
Embarque para o Brasil de D. João VI e de toda a família real,
em Belém, em 27 de novembro de 1807. Gravura de Francisco Bartolozzi
Em 1807
Portugal recusou participar no Bloqueio Continental decretado por
Napoleão Bonaparte, respeitando a tradicional aliança
Luso-Britânica. A França Imperial exigia que todos os estados
europeus aderissem, como parte da estratégia para eliminar a
Grã-Bretanha como principal potência da época e garantir a
hegemonia na Europa.[80] Aqueles que se recusassem seriam invadidos.
Em 1801,
Napoleão assinara um tratado com Espanha, pelo qual esta declararia
guerra a Portugal caso o reino mantivesse o apoio aos britânicos, o
que desencadeou a Guerra das Laranjas, uma campanha de dezoito dias
em que o exército espanhol tomou uma dúzia de populações
fronteiriças no alto Alentejo.[81] A resistência foi mínima e a
paz foi assinada pouco depois, devolvendo as conquistas, excepto
Olivença e Vilareal, antigas disputas fronteiriças. Em outubro de
1807, Napoleão selou o Tratado de Fontainebleau com a Espanha,
prevendo a conquista e partilha de Portugal. Ao mesmo tempo planeava
apoderar-se do Brasil e das colónias espanholas.
A invasão de Portugal foi iniciada ainda nesse ano, pelas tropas do
general Junot, reforçadas por três corpos do exército espanhol.
Atravessando a Beira Baixa, tomaram Lisboa a 1 de dezembro de 1807.
Porém, os planos de Napoleão fracassaram: antes da chegada a
Lisboa, toda a corte portuguesa partira para o Brasil, num total de
cerca de 15 mil pessoas, ao abrigo de uma convenção secreta com a
Inglaterra.[82] Deixaram o território europeu de Portugal nas mãos
de uma regência, com instruções para não "resistir" aos
invasores. Ficava vazio de conteúdo o decreto de Napoleão banindo a
Casa de Bragança do trono de Portugal. A partir do Rio de Janeiro a
corte prosseguiu a política internacional portuguesa e D. João VI
mandou invadir a Guiana Francesa[83] e a Cisplatina (Uruguai), como
retaliação.
Com a rebelião
popular espanhola, as tropas espanholas abandonam Portugal, deixando
margem para uma revolta no Porto a 7 de junho de 1808 e para a
constituição da Junta Provisional. Ao mesmo tempo em todo o
território alastra um movimento de resistência popular que nem a
feroz repressão das forças francesas, em que se destacou o general
Loison (o famigerado «maneta»), conseguiu debelar. O desembarque de
uma força britânica comandada por Arthur Wellesley, Duque de
Wellington perto da Figueira da Foz a 1 de agosto deitou por terra os
planos de ocupação de Portugal. Derrotado em Roliça e no Vimeiro,
Junot assina um armistício, a Convenção de Sintra, que em agosto
de 1808 lhe permite abandonar Portugal em navios britânicos, com as
tropas e o saque.[80] A guerra alastrava a toda a Península,
acabando por comprometer a política imperial da França.
A ajuda
britânica foi crucial para expulsar os invasores. Em duas invasões
subsequentes, a de Soult (1809) e a de Massena (1810), a resistência
luso-britânica, que culminou nas batalha do Buçaco em 1810 e das
Linhas de Torres Vedras,[84] quebrou as asas à política imperial
sobre a Península Ibérica.
Monarquia constitucional (1820–1910)
Revolução liberal de 1820
As Cortes Constituintes de 1822 que aprovaram a primeira
Constituição, por Oscar Pereira da Silva
No início do
século XIX Portugal vivia uma crise motivada pelas consequências
destrutivas das invasões napoleónicas, pela ausência da família
real no Brasil, pelo fim do pacto colonial e abertura do Brasil ao
comércio mundial, que tinha provocado uma quebra de 75% do comércio
externo e a ruína de muitos comerciantes.[85] A condição sui
generis de serem governados pela regência militar britânica de
Beresford, enquanto D. João VI reinava desde 1816 como rei do Reino
Unido de Portugal, Brasil e Algarves no Rio de Janeiro, que se
tornara a capital do reino desde 1808, desconcertava ainda mais os
portugueses.
Ao mesmo tempo, a
ideologia liberal implantava-se em pequenos grupos da burguesia. No
dia 24 de agosto de 1820 eclodiu no Porto uma revolução cujo
objectivo imediato era convocar cortes que dotassem Portugal de uma
constituição. Esta revolução não encontrou oposição. Tendo a
cidade de Lisboa aderido ao movimento, formou-se uma Junta Provisória
cujo objectivo era organizar as eleições para eleger as cortes. Os
deputados eleitos, oriundos de todo os territórios controlados por
Portugal (Brasil, Madeira, Açores, dependências da África e Ásia)
formaram as Cortes Constituintes.[86]
D. João VI foi intimado pelas cortes constituintes a regressar
a Portugal. Antes de voltar nomeou o seu filho D. Pedro como regente
do reino do Brasil, o que desagradou às Cortes que entendiam que a
soberania só poderia residir em Portugal continental. Após o
retorno do rei, em 26 de abril de 1821, Lisboa recuperou o seu
estatuto de capital e iniciou-se uma intensa movimentação política
no sentido de restringir os privilégios do Brasil.[87] As cortes
ordenaram então que D. Pedro deixasse o Brasil para se educar na
Europa. Esta atitude gerou o descontentamento dos 65 deputados
brasileiros presentes, que retornaram ao Brasil.[87] D. Pedro não
acatou as determinações feitas pelas Cortes que exigiam seu retorno
para Portugal. Em 9 de janeiro de 1822, D. Pedro negou ao chamado e
afirmou que ficaria no Brasil. No dia 7 de setembro de 1822 o
príncipe D. Pedro recebe nova mensagem de Lisboa, que rasga diante
dos companheiros, exclamando: "Independência ou morte!".
Este acto, conhecido como o grito de Ipiranga, inicia a independência
do Brasil.[88][89] Com o reconhecimento por Portugal da declaração
de independência do Brasil, em 1825, a nova nação independente
negociou com a Grã-Bretanha e aceitou pagar indenizações de 2
milhões de libras esterlinas a Portugal num acordo conhecido como
Tratado de Amizade e Aliança firmado entre Brasil e Portugal. Com a
independência do Brasil Portugal fica obrigado a acentuar a sua
expansão territorial no interior da África a fim de manter-se a par
com as outras potências.
Nesse ano as
Cortes aprovaram a Constituição portuguesa de 1822, que o rei
aceitou, iniciando a monarquia constitucional.[90] Inspirada na
Constituição francesa de 1791 e na Constituição Espanhola de
1812, consagrava a divisão tripartida dos poderes (legislativo,
executivo e judicial), limitava o papel do rei a uma mera função
simbólica, colocando o poder no governo e num parlamento unicameral
eleito por sufrágio directo. Isso mostrava a forte influência
iluminista.
Guerra civil portuguesa (1828–1834)
Caricatura representando D. Pedro IV e Miguel I disputando a coroa
portuguesa, por Honoré Daumier, 1833
A morte do rei D. João
VI em 1826 desencadeou uma disputa sobre a sucessão real entre
constitucionalistas e absolutistas. O herdeiro imediato era D. Pedro,
então Imperador do Brasil e constitucionalista convicto.[91]
Seguia-se Miguel I, um tradicionalista que fora expulso do reino após
tentar dois golpes absolutistas - a Vilafrancada e a Abrilada.
Chamado pela regência, D. Pedro foi por três meses rei de Portugal
como Pedro IV. Mas, pressionado pela recusa dos brasileiros à união
dos dois reinos e pelos Miguelistas, abdicou pouco depois para a sua
filha Maria da Glória então com sete anos.
Como parte do acordo de
sucessão, em abril de 1826 D. Pedro criou uma Carta constitucional
que revia a Constituição de 1822 para conciliar absolutistas e
liberais, permitindo que ambas as facções obtivessem postos no
governo. Retornou ao Brasil, deixando o trono a D. Maria da Glória e
a regência a seu irmão D. Miguel até que esta atingisse a idade
necessária para se casarem.[92]
D. Miguel regressou a Portugal para jurar a Carta Constitucional
portuguesa de 1826 e exercer a regência. Mas um mês depois convocou
cortes tradicionais, com nobreza, clero e homens livres. Aí foi
coroado como rei D. Miguel I, anulando a Constituição e depondo a
monarquia constitucional de D. Maria. Seguiram-se seis anos de guerra
civil com intervenções militares estrangeiras. Tomando o partido
dos liberais, Pedro IV abdicou do trono brasileiro para o seu
filho Pedro II do Brasil e selou uma aliança internacional para
derrotar seu irmão em Portugal. As derrotas sucessivas de Miguel
forçaram-no a desistir da luta na Convenção de Évora Monte, e
permitir a restauração da monarquia constitucional e do trono de
Maria II.
Liberalismo
Ceptro da rainha D. Maria II com a carta constitucional de 1826
Após a
derrota dos absolutistas, a política portuguesa do século XIX foi
marcada por ideias liberais. Entre 1834 e 1836 vigorou o chamado
devorismo,[93][94] de influência maçónica. Sob a Carta
Constitucional portuguesa de 1826 eram vendidos em hasta pública os
bens nacionais, facilitando o acesso aos chefes liberais.
Mas não alcançou a paz desejada. Os liberais eram um grupo
heterogéneo que se juntara para lutar contra os absolutistas, mas
tinham muitas discrepâncias entre si. Por esta razão, dividiram-se
desde o início em moderados e progressistas. O primeiro ponto de
discórdia foi a Constituição. Enquanto os moderados, chamados
cartistas, queriam impor a Carta Constitucional, os progressistas,
denominados setembristas, defendiam a soberania popular, lutando
activamente por uma constituição aprovada por um congresso
democraticamente eleito pelo povo.
A Revolução de Setembro de 1836 levou à promulgação da
Constituição Portuguesa de 1838. Contudo, foi efémera a sua
vigência. A rainha D. Maria II, que era favorável aos cartistas,
entregou o poder a António da Costa Cabral, Marquês de Tomar,
nomeando-o ministro da justiça. Costa Cabral procede a um golpe de
Estado e restaura a Carta Constitucional. De 1842 a 1846, governou o
país como um ditador, causando descontentamento entre a população.
O cabralismo terminou com a Revolução da Maria da Fonte seguindo-se
novo período de guerra civil. A Guerra da Patuleia entre Cartistas e
Setembristas terminou com uma clara vitória cartista mas a rainha
teve que retirar Costa Cabral do governo e chamar o governo do
Partido Progressista.
Inauguração, a 28 de outubro de 1856, da primeira linha de
caminho-de-ferro em Portugal, aguarela de Alfredo Roque Gameiro
Iniciou-se
então uma fase de estabilidade, a Regeneração, inicialmente
presidido pelo marechal Saldanha, em que se destacou Fontes Pereira
de Melo.[95] Com a morte de D. Maria II em 1853 passou a reinar em
Portugal a Casa de Bragança-Saxe-Coburgo e Gota. O sucessor foi o
seu filho D. Pedro V, cujo reinado iniciou um longo período em que
Portugal foi um modelo de monarquia constitucional, em que os
direitos individuais eram respeitados e havia uma ampla liberdade de
imprensa.
Os partidos liberais haviam chegado a um consenso sobre as
vantagens da promoção do desenvolvimento material, incluindo das
ferrovias, do comércio e da indústria, deixando de lado as
divergências constitucionais de 1830 e 1840. No entanto, apesar da
paz social, a industrialização e modernização da agricultura e da
literacia da população, foram mais lentos em Portugal do que em
qualquer outro país na Europa Ocidental.
Passou a vigorar o rotativismo, em que os dois principais partidos
políticos, o Partido Regenerador (conservador) e Partido Histórico
(progressista) alternavam no poder. Na década de 1880 houve uma
extensão do direito de voto a todos os cabeças de família,
aproximando-se muito do o sufrágio universal. No entanto, a maioria
da população, rural e analfabeta, vivia fora da política
permitindo aos chefes políticos controlar o sistema político.
Durante a
chamada "partilha de África", Portugal entrou em colisão
com as principais potências europeias ao reclamar vastas áreas com
base no "direito histórico". Na sequência da Conferência
de Berlim, em 1890 houve uma crise colonial na África,[96] seguida
por uma série de campanhas militares para a ocupação efectiva do
território que Portugal reclamava como colónias. Estas campanhas
criaram um corpo de oficiais africanistas e anti-liberais que viriam
a ser muito importantes na história portuguesa. Enquanto isso, os
movimentos republicanos iam ganhando adeptos.
O regicídio e o fim da Monarquia
Representação do Regicídio de 1908 no Terreiro do Paço em
Lisboa
O regicídio de 1 de fevereiro de 1908, ocorrido no Terreiro do
Paço, em Lisboa, marcou profundamente a História de Portugal, uma
vez que dele resultou a morte do rei D. Carlos I e do seu filho e
principal herdeiro, o Príncipe Real D. Luís Filipe de Bragança,
marcando o fim da última tentativa séria de reforma da Monarquia
Constitucional e, consequentemente, originando uma nova escalada de
violência na vida pública do País.
Após a morte do rei e do Príncipe Real, o filho varão
sobrevivente, D. Manuel de Bragança, ascendeu do grau de infante
para o de rei tomando o nome de D. Manuel II. Contudo, devido à
implantação da República a 5 de outubro de 1910, o tempo do seu
reinado efectivo foi curto e o novo monarca viu-se obrigado a partir
para o exílio, assim como todos os demais membros da família real
portuguesa da dinastia de Bragança. Para o efeito, a República
Portuguesa decretou a Lei da Proscrição.
No exílio, o rei D. Manuel II casou com D. Augusta Vitória,
princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, sem ter deixado filiação.
Durante a sua vida no exílio chegou a encontrar-se em Fulwell Park,
Londres, com a sua alegada meia-irmã D. Maria Pia de Saxe-Coburgo e
Bragança, a qual manteve, posteriormente, uma acentuada disputa
dinástica contra os seus primos afastados do ramo Miguelista.
República (1910–1926)
Implantação da república
Ilustração alusiva à Proclamação da República Portuguesa
a 5 de outubro de 1910
A subjugação do país após o ultimato britânico[97] e a severa
crise financeira ocorrida entre 1890-1891, os gastos da família
real[98], o poder da igreja, a instabilidade política e social, o
rotativismo de dois partidos no poder (progressistas e
regeneradores), a ditadura de João Franco[99], a aparente
incapacidade de acompanhar a evolução dos tempos — tudo
contribuiu para a erosão da monarquia[100] portuguesa.
Os defensores da república,
particularmente o Partido Republicano Português, souberam tirar o
melhor proveito[101], apoiados indirecta e directamente em
organizações secretas como a maçonaria e a carbonária. O
republicanismo acentuou-se de tal forma que em 1908 o rei D. Carlos I
e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram mortos a tiro na Praça
do Comércio em Lisboa por membros da carbonária. Manuel II culpou
do regicídio o primeiro-ministro de seu pai, João Franco que
governara como um ditador nos últimos anos. João Franco foi
demitido, mas o novo rei não conseguiu melhorar a imagem da
monarquia nem deter a pressão do movimento republicano.
Em outubro de 1910, estalava uma revolta. A relutância do exército
em combater os cerca de dois mil soldados e marinheiros revoltosos
provocaria a deposição de D. Manuel II e a proclamação da
República Portuguesa, partindo o rei para o exílio na Grã-Bretanha.
A República foi proclamada no dia 5 de outubro de 1910, da varanda
dos Paços do Concelho de Lisboa[102]. Um governo provisório
chefiado por Teófilo Braga dirigiu os destinos do país até à
aprovação da Constituição de 1911 que deu início à Primeira
República.[103] Entre outras mudanças, com a implantação da
república, foram substituídos os símbolos nacionais: o hino
nacional e a bandeira[104] bem como a moeda, com o escudo a
substituir o real.
I República
Embarque de tropas para Angola durante a Primeira Guerra Mundial
Depois da revolução em Lisboa, a monarquia foi sucedida por uma
república parlamentarista, que durou de 1910 a 1926. Os republicanos
eram uma minoria urbana num país rural, e o direito de voto foi
restrito aos homens alfabetizados. Foi um período de grande
instabilidade política: nos dezesseis anos de duração teve nove
presidentes e 45 governos.
O parlamento era o centro do sistema político e elegia o presidente
da república, que tinha pouco poder de arbitrar entre as diferentes
facções. O sistema partidário estava fragmentado e sucediam-se
governos sem maioria parlamentar suficiente. Uma facção do Partido
Republicano Português, os "democratas" de Afonso Costa,
tornou-se o centro do sistema político e controlava a administração
e, por meio de caciquismo, as eleições.[105] O resto das facções
republicanas e monárquicas recorreu à insurreição para tomar o
poder. Houve numerosas conspirações e golpes de estado. O regime
era fraco e as políticas secularistas e de controle da Igreja
Católica enfrentaram esta e a população rural.[106]
Portugal participou na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a
mobilização militar e o colapso do comércio marítimo causaram
muitos problemas sociais, tais como inflação e escassez. O
movimento operário, em que primava a organização dos
anarco-sindicalistas, também não se sentia representado pela
República e foi muito combativo, com muitas greves contra a carestia
em que usava a violência política. O golpe de estado em 1917 de
Sidónio Pais tentou criar uma república presidencialista e integrar
no regime monárquicos e católicos, mas após o seu assassinato um
ano depois e uma pequena guerra civil entre janeiro-fevereiro de 1919
entre Monarquia e República, restaurou-se a Constituição de 1911.
O sistema sobreviveu ainda oito anos , mas enfrentou inúmeros
problemas sociais, golpes e insurreições, até que o golpe militar
de 1926 impôs uma ditadura.
Ditadura (1926–1974)
Ditadura (1926–1933)
O golpe militar de 1926 pôs fim à Primeira República, iniciando
uma ditadura militar encabeçada pelo general Carmona. Em 1928 a
situação financeira do país tornou-se a principal preocupação do
governo e Carmona nomeou ministro das Finanças António de Oliveira
Salazar, um prestigiado professor de finanças da Universidade de
Coimbra.[107] O regime, progressivamente mais autoritário, promulgou
em 1930 um Acto Colonial[108] centralizador, que restringiu a
autonomia financeira e administrativa das colónias no que chamou
Império Colonial Português. Os antigos partidos políticos
portugueses desaparecem, excepto o Partido Comunista Português,
cujos dirigentes foram duramente perseguidos pela polícia política
(PVDE e depois, PIDE). A censura, restabelecida em 1926, foi
consolidada e as greves proibidas.[109]
Estado Novo (1933-1974)
António de Oliveira Salazar (terceiro a partir da esquerda),
fundador do Estado Novo visita obras da Ponte de Santa Clara em
Coimbra
Salazar foi ganhando peso no governo e em 1932 tornou-se presidente
do Conselho de Ministros com poderes ditatoriais.[107] Profundamente
conservador e nacionalista, rejeitava o comunismo e o liberalismo: o
seu modelo era o meio rural, que considerava ideal. Em 1933,
promulgou uma nova constituição inspirada no corporativismo, na
doutrina social da Igreja e no nacionalismo. Estava lançada a base
do novo regime político, o Estado Novo. De cariz presidencialista e
anti-parlamentarista, na prática o presidente da República era uma
figura apagada e o poder concentrou-se em Salazar. Um partido único
(União Nacional), apoiante do regime, dominava a Assembleia Nacional
e a economia era regulada por uma Câmara Corporativa composta por
elementos ligados às profissões.[110]
Em 1936 o regime criou a Mocidade Portuguesa, para doutrinar a
juventude. A qualificação do regime de Salazar como fascista não é
unânime na historiografia, utilizando-se frequentemente o termo
regime autoritário ou fascismo clerical, mas é clara a semelhança
com a Itália de Mussolini e a ditadura espanhola de Primo de Rivera
e Franco, que apoiou na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).
Agricultores beirões (c.1950)
Em 1939
Portugal declarou oficialmente a neutralidade na Segunda Guerra
Mundial. Nesse ano assinou um pacto de não agressão com Espanha mas
recusou aderir ao Pacto Anti-Komintern. Simultaneamente, acordou a
cooperação com a Grã-Bretanha e em 1943 chegou a concedeu-lhe a
Base Aérea das Lajes nos Açores. Salazar entendia ter Portugal
pouco a ver com a política europeia, sendo a sua vocação
ultramarina, procurando afastar-se do conflito.[111] Portugal
exportava produtos para os países em conflito, como açúcar, tabaco
e volfrâmio, usado em material bélico. No fim da guerra, o governo
decretou luto oficial de três dias pela morte de Hitler. Em 1949
Portugal ingressa na Organização do Tratado do Atlântico Norte
(OTAN/NATO) e em 1955 na Organização das Nações Unidas.
De 1949 a 1958 opositores à ditadura
como Norton de Matos e Humberto Delgado defenderam a democratização.
Humberto Delgado liderou a principal tentativa de derrube da ditadura
por eleições, ao reunir toda a oposição democrática e grande
apoio popular. Apesar de ter perdido as eleições de 1958 num
processo eleitoral fraudulento,[112] abalou o poder do Estado Novo e
deu esperança à oposição.
Guerra do ultramar
Soldados portugueses nas matas do Rio Onzo em Angola
A descolonização maciça europeia do pós-II guerra mundial fez
crescer a condenação ao colonialismo e a resistência à dominação
portuguesa. Após a proclamação da Independência da Índia face
aos britânicos em 1947, Portugal recusou o pedido da Índia para
rescindir da posse do Estado Português da Índia. Esta atitude foi
condenada pelo Tribunal Internacional e pela Assembleia das Nações
Unidas.
Para deter as pressões políticas internacionais, na esperança
de preservar um Portugal intercontinental, o Estado Novo formulou uma
nova política Ultramarina em 1951: revogou o Acto Colonial de 1930 e
criou a chamada "solução Portuguesa", que passou a
designar as colónias por províncias ultramarinas, considerando que
estas eram parte integrante e inseparável de Portugal, como "Nação
Multirracial e Pluricontinental". Em 1954, após protestos
pacíficos e a recusa do governo português em negociar, a União
Indiana anexou Dadrá e Nagar Haveli.
No início da década de 1960, nas colónias portuguesas africanas
vários grupos formaram partidos de luta pela autodeterminação. Em
Angola surgem o MPLA e a UPA, na Guiné o PAIGC e em Moçambique a
FRELIMO, inspirados em líderes como Agostinho Neto, Eduardo Mondlane
e Amílcar Cabral. A guerra fria entre os Estados Unidos e a União
Soviética alimentava, ideológica e materialmente estes partidos. A
15 de Março de 1961, a UPA atacou fazendas no norte de Angola
iniciando uma série de confrontos. Em 19 de dezembro desse ano, uma
força de 40 000 soldados indianos ocupou Goa, integrando o
Estado Português da Índia no seu território, após 451 anos de
ocupação portuguesa. A maioria das nações reconheceu a acção da
Índia, no entanto, Salazar recusou-se a reconhecer a soberania
indiana, mantendo estes territórios representados na Assembleia
Nacional.
Primeiro em Angola, depois na Guiné Portuguesa e Cabo Verde, e em
1964 em Moçambique, surgem operações de guerrilha em três
frentes, iniciando a chamada Guerra do Ultramar. Apesar do grande
número de tropas portuguesas, que chegou a atingir 200 mil
homens[113], em parte recrutados nas colónias, a guerrilha não foi
contida. A guerra prolongou-se causando cerca de 63 mil mortos. Os
custos com a defesa aumentaram, chegando a 46% do total da despesa
pública portuguesa em 1969,[113] contribuindo para o empobrecimento
da economia. Procurando fugir à pobreza e ao serviço militar, quase
10% da população portuguesa emigrou durante a década de 60, tendo
como destinos principais a França e a Alemanha Ocidental, mas também
os Estados Unidos, a Venezuela e a África do sul.[114] [115]
Em 1968,
Salazar foi afastado do poder por doença, sucedendo-lhe Marcelo
Caetano. Entre 1968 e 1970, o novo governo fez uma modernização
económica e liberalização política moderadas, a chamada Primavera
Marcelista,[116] que criou a expectativa de uma verdadeira reforma do
regime, o que não chegou a acontecer. O contexto internacional era
cada vez mais desfavorável ao regime, mas a intransigência do
governo e de muitos colonos bloqueava a descolonização: no início
da década de setenta mantinha-se vivo o ideário salazarista de
travar a guerra «orgulhosamente sós»[117]. A insustentabilidade de
uma guerra de três frentes, (excepto Timor Português, cuja
distância tornou inviável a intervenção), a forte pressão
internacional, sobretudo da ONU e dos E.U.A. contra colonialismo,
causaram o alargamento da oposição ao Estado Novo.
Democracia (1974–presente)
Revolução dos cravos
Manifestação do 25 de abril de 1983
na cidade do Porto
Na década de
70 o descontentamento da sociedade portuguesa face ao regime cresceu,
impulsionado pelas dificuldades económicas resultantes de 13 anos de
guerra do ultramar e pela crise do petróleo de 1973. A recusa de
Marcelo Caetano em aceitar uma solução política para a guerra
revoltou as forças armadas, que concluíram que o fim do conflito
passava pelo derrube da ditadura. Oficiais intermédios do exército,
principalmente capitães com o apoio dos seus superiores,
organizaram-se em agosto de 1973 em Bissau num movimento clandestino.
Nasceu o Movimento das Forças Armadas (MFA) com o lema
"Democratizar, Descolonizar e Desenvolver".[118]
Em fevereiro de 1974 o general António de Spínola, ex-governador
da Guiné-Bissau, publicou o livro Portugal e o Futuro. Pela
primeira vez uma alta patente militar advogava publicamente a
necessidade de uma solução política para as revoltas separatistas
nas colónias. No dia 14 de março os generais Spínola e Costa Gomes
foram demitidos dos cargos de Vice-Chefe e Chefe de Estado-Maior
General das Forças Armadas.
No dia 25 de
abril de 1974 em Lisboa o MFA conseguiu um bem sucedido golpe de
estado que, por não ser violento, se designou historiograficamente
Revolução dos Cravos. A população aderiu e o poder foi
inicialmente assumido por uma Junta de Salvação Nacional de
militares, mais tarde substituída pelo Conselho da Revolução
(1975–1982).[119] António de Spínola foi designado Presidente da
República, tendo entrado em funcionamento o primeiro de uma série
de governos provisórios. A censura acabou, os prisioneiros políticos
foram libertados e as maiores instituições do Estado Novo foram
extintas. Foi iniciado o processo para conceder a independência
colónias ultramarinas.
Inicialmente
deu-se uma divisão entre militares conservadores em torno de
Spínola, e de inclinação socialista, incluindo destacados membros
do MFA em torno do primeiro-ministro Vasco Gonçalves. No dia 11 de
março de 1975 o país viveu a ameaça de um golpe de estado
encabeçado por Spínola. O golpe falhou e Spínola foi forçado ao
exílio no Brasil.[120] No mesmo dia o II Governo Provisório tomou
medidas socialistas na economia, decretando a nacionalização da
banca e dos seguros. Seguiram-se as principais indústrias os meios
de comunicação, e a reforma agrária, com a expropriação e
ocupação de terras, em especial no Alentejo. Cerca de 900 000
hectares de terras agrícolas foram ocupadas entre abril de 1974 e
dezembro de 1975.
Os primeiros dois anos pós-Revolução foram de instabilidade e
possibilidade de guerra civil. O período desde a revolução até à
promulgação de uma nova constituição, que ficou conhecido como
PREC (Processo Revolucionário Em Curso), foi caracterizado por
disputas entre forças de esquerda e de direita, particularmente
durante o chamado verão quente.
III República
População portuguesa entre 1961-2003, em milhares, (2005 Dados da
FAO) com a emigração seguida dos retornados,[121][122] entre
500,000 a 1 milhão após a revolução dos cravos
Passado um ano sobre a revolução,
no dia 25 de abril de 1975, realizaram-se as primeiras eleições
livres com sufrágio universal em Portugal, com uma afluência
histórica de 91% dos cidadãos recenseados, para formar uma
Assembleia Constituinte que elaborasse uma nova constituição.[123]
Ainda em 1975 foi concedida a todas as colónias ultramarinas a
independência.[124] A retirada foi incondicional e imediata,
tornando estados independentes todos os territórios portugueses
africanos. Este processo provocou um êxodo em massa para Portugal,
principalmente de Angola e de Moçambique. Mais de um milhão de
refugiados sem meios fugiram das antigas colónias portuguesas, os
"retornados".[121][122]
Em abril de 1976 foi promulgada a
nova constituição.[123] Nela se determinava a transição para o
socialismo como destino do estado português. Dias depois, nas
eleições legislativas vence o Partido Socialista Português (PS) e
Mário Soares, seu líder, tornou-se primeiro-ministro do I Governo
Constitucional de Portugal. Nas primeiras eleições democráticas
para a presidência da República venceu Ramalho Eanes, que se impôs
claramente à frente de Otelo, candidato da esquerda mais radical. Em
novembro do mesmo ano realizaram-se as primeiras eleições
autárquicas. Passam a funcionar as instituições democráticas base
para criar um modelo de estado democrático Parlamentarista ao estilo
da Europa Ocidental. Eanes e Mário Soares aproximaram o país da
Comunidade Europeia. Portugal entra para o Conselho da Europa,
iniciando o processo de abertura do país que levou à adesão à
CEE.
Em 1979, pela primeira vez após a revolução, ganhou as eleições
parlamentares um grupo político do centro-direita, o governo de
Francisco Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão.[125] Este governo
chegou a um acordo com a oposição socialista para realizar uma
revisão constitucional. A Constituição que entrou em vigor em 1982
eliminou algumas instituições que emergiram após a revolução,
incluindo o Conselho da Revolução, e criou um Tribunal
Constitucional ao estilo dos países democráticos.[126]
Vista do Parque das Nações, criado para receber a EXPO'98 em
Lisboa, vendo-se o pavilhão Atlântico, a torre e a Ponte Vasco da
Gama
Em 1985 Aníbal Cavaco Silva tornou-se primeiro-ministro pelo Partido
Social-Democrata, de cariz conservador. Dois anos depois conquistou a
maioria absoluta. Permaneceu no poder até 1995, promovendo uma
política económica liberal e privatizando as empresas que haviam
sido nacionalizadas depois da revolução.[127] Em 1986, Portugal
aderiu à Comunidade Económica Europeia (CEE). Nos anos seguintes, a
economia portuguesa progrediu como resultado fundos estruturais e de
coesão da CEE/UE e do acesso mais fácil das empresas portuguesas
aos mercados estrangeiros. Em 1991 foi concluída a autoestrada
Lisboa-Porto, a primeira de 48 autoestradas entre numerosas obras
públicas realizadas nos anos seguintes. Em março de 1995 Portugal
começou a aplicar as regras do espaço Schengen, abrindo as
fronteiras a outros membros.[128].
De 1995 a 2001, o governo foi liderado pelo socialista António
Guterres. Para celebrar 500 anos dos descobrimentos, Portugal
organizou a Exposição Mundial de 1998 em Lisboa.[128] No ano
seguinte aderiu à Zona Euro,[129] adotando como moeda o euro. Nesse
ano Portugal foi escolhido para organizar o Campeonato Europeu de
Futebol de 2004, para o que iniciou a construção de 10 estádios de
futebol.[130] Em 20 de dezembro de 1999 a soberania de Macau passou
para a República Popular da China que como último território
ultramarino administrado de facto por Portugal, marcou o fim
do império português.[131]
Em dezembro de 2001 António Guterres abandonou o governo afirmando
não ter condições para prosseguir. Nas eleições antecipadas, a
direita voltou a obter a maioria, com o PSD liderado por José Manuel
Durão Barroso coligado com o Partido Popular. Num breve período
destacou-se pela política de contenção da despesa pública e pelo
apoio à guerra do Iraque, quando em 2003 Barroso foi anfitrião da
Cimeira das Lajes, que culminou 4 dias depois com o seu início.[132]
Em 2004 Barroso abandonou o cargo ao ser nomeado presidente da
Comissão Europeia e foi substituído por Pedro Santana Lopes. Em
novembro a Assembleia da República foi dissolvida para eleger novo
governo. O Partido Socialista conseguiu então pela primeira vez uma
maioria absoluta e José Sócrates tornou-se primeiro-ministro.
Inicia então a modernização da administração pública
introduzindo o Cartão de cidadão e um "plano tecnológico",
com o objectivo estimular o fraco desempenho da economia portuguesa,
que registava o menor PIB per capita da Europa Ocidental.[133].
Contudo, o plano teve pouco efeito. Em 2007 Portugal presidiu à
assinatura do Tratado de Lisboa.[134] que reformou o funcionamento na
UE após a tentativa falhada de aprovar uma Constituição Europeia.
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